23/02/2025
Pesquisa mostra que um em cada três adolescentes já sofreu agressão sexual virtual
BELO HORIZONTE, MG - O uso excessivo do celular por crianças
e adolescentes de até 18 anos pode gerar impactos em diversas esferas da vida
dessa parcela da sociedade. Por isso, o Child Fund Brasil está realizando a
pesquisa “Mapeamento dos fatores de Vulnerabilidade de Adolescentes Brasileiros
na Internet”, inédita no Brasil. A primeira de quatro etapas da pesquisa, apresentada no
último dia 12 de dezembrio, entrevistou 8.436 estudantes de escolas
particulares e públicas de todos os estados brasileiros entre os meses de abril
e setembro. O resultado mostra que um terço dos adolescentes já sofreu algum
tipo de agressão sexual virtual e que 12% deles foram vítimas dessa violência
de duas ou mais formas. Cerca de 20% dos entrevistados afirmaram ter interagido com
uma pessoa desconhecida e suspeita em algum momento. A maior parte das
interações com os agressores (55%) foi através do Whatsapp ou do Telegram. O perfil dos agressores também foi alvo da pesquisa. Quando
foi possível a identificação, 58% eram homens e 14% moravam na mesma cidade que
a vítima. Entre as regiões, os dados revelaram a região mais e a menos
vulnerável. O resultado final trouxe a região Sul do país como a mais propensa
a esse tipo de agressão. “Isso nos chamou atenção, porque a gente parte da
premissa de que o acesso à informação é mais democrática", afirma
Cristiano Moura, gerente de programas do Child Fund Brasil. “A região Nordeste ficou bem próxima, com um bom desempenho,
depois Norte e Centro-Oeste, e o Sul foi bem discrepante, o que nos chamou a
nossa atenção. Isso requer aprofundamento da informação para entender porque
isso está ocorrendo. Com isso podemos propor políticas específicas para cada
região”, complementou. Comportamento de risco O estudo também buscou entender o comportamento dos jovens a
fim de entender como os agressores podem chegar até eles. Segundo a Child Fund,
quanto mais tempo os adolescentes passam online, maior a chance de estar sendo
observado por terceiros. Além disso, adolescentes entre 17 e 18 anos que usam
mais de um app têm 8 vezes mais chances de serem vítimas de violência sexual
online. Acessar sete ou mais aplicativos aumenta em 100% o risco de uma
agressão. O gênero também interfere na vulnerabilidade do usuário, uma
vez que mulheres têm mais chances de serem abordadas do que os homens.
Entretanto, o estudo chama atenção para o grupo composto por outros gêneros,
0,4% dos entrevistados, foi o grupo mais vulnerável às investidas agressivas. Na questão de segurança, aqueles do gênero feminino e
masculino apresentaram uma diferença muito grande daqueles que chamamos de
‘outros’, então esse grupo tem uma exposição muito maior. Ou seja, a questão de
gênero afeta, assim como o tempo de exposição no uso da internet, que fora da
escola os adolescentes ficam, em média, mais de quatro horas online”, diz
Moura. Acesso à informação A pesquisa avaliou o ambiente dos adolescentes e classificou
em quatro níveis: bem protegidos, protegidos, pouco protegidos e desprotegidos.
A classificação leva em consideração fatores como acesso à informação ou cursos
sobre violência sexual online, se os pais conversam sobre com os filhos e se o
acesso ao ambiente digital tem controle de horário. Os jovens considerados “desprotegidos”, ou seja, que não têm
nenhum tipo de controle ou acesso às informações, têm o dobro de chances de se
deparar com uma violência sem interação (aparecem espontaneamente no feed, por
exemplo). Aprofundando o estudo Os resultados completos da etapa quantitativa do estudo
serão divulgados em maio, mês de combate ao abuso e à exploração sexual
infantil no Brasil. A segunda fase, de conversa com os adolescentes por meio de
grupos focais, foi finalizada recentemente. “Estamos trabalhando em uma
aprendizagem de máquina para cruzar o quantitativo com o qualitativo”, explica
Cristiano. Um dos diferenciais deste levantamento está na terceira
etapa, que está em andamento, e busca conversar com agressores que foram
condenados por crimes de violência sexual virtual contra crianças e
adolescentes. O objetivo é entender como agiam e como escolhiam as vítimas,
entre outros pontos. Por fim, o estudo vai buscar pessoas que passaram por abusos
sexuais no meio digital para entender como lidaram com a questão. “A pesquisa
tem o objetivo de oferecer subsídios para gestores públicos e formuladores de
políticas. Nessa primeira fase, o relatório já traz algumas recomendações,
ainda incipientes, e na quarta fase vamos emitir um relatório para embasar
políticas públicas. O Brasil ainda é muito carente nesse campo, não temos uma
política nacional, precisamos avançar muito ainda”, Maurício Cunha, diretor do
Child Fund Brasil. Para Cristiano, além da atuação do poder público e das
famílias, é necessário que as empresas de tecnologia e as donas das redes
sociais também se envolvam ativamente na questão. “É necessário que as grandes
corporações de comunicação sejam responsabilizadas por isso. Muitas vezes eles
passam a responsabilidade para os usuários ou as famílias. Mas, de alguma
forma, eles têm que entrar com a gente, porque senão vai ser como enxugar
gelo”, afirma.
EM, com foto: Arquivo/EBC
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