20/02/2025
Bolsonaro já tinha discurso pronto para ser lido após golpe que tiraria Lula do poder
BRASÍLIA, DF - A Procuradoria-Geral da República (PGR)
afirma que um documento encontrado na sala do ex-presidente Jair Bolsonaro, na
sede do Partido Liberal (PL), consiste no discurso que o ex-presidente faria
logo após o golpe de Estado tramado para impedir a transição de governo. O
mesmo documento foi encontrado no celular do ex-ajudante de Ordens da
Presidência da República tenente-coronel Mauro Cid. “O discurso encontrado na sala de Jair Messias Bolsonaro
reforça o domínio que este possuía sobre as ações da organização criminosa,
especialmente sobre qual seria o desfecho dos planos traçados – a sua
permanência autoritária no poder, mediante o uso da força”, justifica o
procurador-geral, Paulo Gonet. O texto do suposto discurso pós-golpe justifica o decreto de
Estado de Sítio e o da Garantia da Lei e da Ordem (GLO), que seriam editados
por Bolsonaro. O documento, atribuído pela PGR ao ex-presidente, defende que
algumas decisões judiciais devem ser consideradas ilegítimas. “Devemos considerar que a legalidade nem sempre é
suficiente: por vezes a norma jurídica ou a decisão judicial são legais, mas
ilegítimas por se revelarem injustas na prática. Isso ocorre, quase sempre, em
razão da falta de constitucionalidade, notadamente pela ausência de zelo à
moralidade institucional na conformação com o ato praticado”, diz o texto
encontrado na sala de Bolsonaro. Na noite desta terça-feira (18), a PGR denunciou o
ex-presidente Jair Bolsonaro e mais 33 pessoas ao Supremo Tribunal Federal
(STF) pelos crimes de golpe de Estado, abolição violenta do Estado Democrático
de Direito e organização criminosa. A acusação também envolve outros militares,
entre eles, o ex-ministro da Casa Civil e da Defesa Braga Netto e Mauro Cid,
ex-ajudante de ordens de Bolsonaro. Discurso No discurso de quatro páginas, o ex-presidente argumenta que
o “Princípio da Moralidade Institucional” teria sido violado por decisões de
tribunais superiores. O texto também defende que o ministro Alexandre de Moraes
não poderia presidir o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), além de criticar
decisões do TSE. “Todas estas supostas normas e decisões são ilegítimas,
ainda que sejam aparentemente legais e/ou supostamente constitucionais”, diz o
documento, acrescentando que tais decisões, como a que rejeitou ação do PL
contra o resultado das urnas, “colocam em evidência a necessidade de
restauração da segurança jurídica e de defesa às liberdades em nosso país”. O suposto discurso pós-golpe cita decisões do STF e conclui
pela necessidade de um estado de sítio. “Diante de todo o exposto e para
assegurar a necessária restauração do Estado Democrático de Direito no Brasil,
jogando de forma incondicional dentro das quatro linhas, com base em
disposições expressas da Constituição Federal de 1988, declaro Estado de Sítio;
e, como ato contínuo, decreto Operação de Garantia da Lei e da Ordem”. Operação 142 Outro documento apreendido na sede do PL, na mesa de assessor
do general WBraga Netto, também denunciado pela PGR por tentativa de
golpe de Estado, revela medidas que a suposta organização criminosa tomaria
para consolidar o poder. Com o título de Operação 142, em referência ao artigo 142 da
Constituição, que disciplina o uso das Forças Armadas para garantia da lei e da
ordem, o documento previa uma série de medidas para o golpe de Estado. “O plano também previa ações claramente voltadas à restrição
de exercício das instituições democráticas, como ‘Anulação das eleições’,
‘Prorrogação dos mandatos’, ‘Substituição de todo TSE’ e ‘Preparação de novas
eleições’”, sustenta a PGR. No tópico “Linhas de esforço”, o arquivo propunha ações de
interrupção do processo de transição de governo; mobilização de juristas e
formadores de opinião; e enquadramento jurídico do decreto 142. Segundo Gonet, o documento deixa “evidente o escopo do grupo
de depor o governo legitimamente eleito e permanecer no poder de forma
autoritária”. “Esse objetivo chegou a ser declarado de forma expressa ao
final do documento: ‘Lula não sobe a rampa’”, acrescentou o PGR. Defesas Em nota, a defesa do ex-presidente informou ter ficado
“estarrecida e indignada com a denúncia” apresentada nesta terça-feira.
Assinada pelo advogado Paulo Cunha Bueno, a nota afirma que Bolsonaro “jamais
compactuou com qualquer movimento que visasse a desconstrução do Estado
Democrático de Direito ou as instituições que o pavimentam”. A defesa de Braga Netto afirmou que a denúncia é
“fantasiosa” e “não apaga a sua história ilibada de mais de 40 anos de serviços
ao Exército brasileiro”. “O general Braga Betto está preso há mais de 60 dias e ainda
não teve amplo acesso aos autos, encontra-se preso em razão de uma delação
premiada que não lhe foi permitido conhecer e contraditar”, diz a defesa. Nesta quarta-feira (19), o ministro Alexandre de Moraes
levantou o sigilo da delação de Mauro Cid. Os advogados do general, José Luis Oliveira Lima e Rodrigo
Dall’Acqua, dizem ainda confiar que Braga Netto será inocentado. “A defesa
confia na Corte, que o STF irá colocar essa malfadada investigação nos
trilhos”, afirmaram.
Lucas Pordeus León/Fernando Fraga – Agência Brasil, com foto: Alan Santos/PR
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